Cidade de 8.000 habitantes terá fábrica de R$ 28 bi, mas se preocupa com isso

Uma das cidades de menor densidade demográfica do Brasil ganhou na loteria. O que o prefeito de Inocência, em Mato Grosso do Sul, deseja agora é descobrir se dinheiro compra felicidade.

O município (a 330 km de Campo Grande) tem 8.404 moradores, 1,46 habitante por quilômetro quadrado e será sede da nova fábrica da Arauco, gigante chilena de celulose. O processo de terraplanagem deve começar no segundo semestre, e as obras, nos primeiros meses de 2025. É um projeto avaliado em R$ 28 bilhões.

Poderia ser apenas motivo de júbilo. Mas também há preocupação.

“Qualquer cidade do país gostaria de receber um investimento dessa envergadura. Mas a gente vê o que aconteceu em outros locais e fica pensando nos problemas”, afirma o prefeito Antônio Ângelo Garcia dos Santos, o Toninho da Cofapi (PP).

Será um boom econômico, acredita. Hoje no 54º lugar no ranking de receitas do estado, Inocência espera entrar entre os dez maiores em cerca de cinco anos. A arrecadação em 2024 deverá ficar, informa ele, em R$ 130 milhões. O 10º município com mais recursos em Mato Grosso do Sul, no ano passado, foi Chapadão do Sul, com cerca de R$ 299,9 milhões.

“São as dores do crescimento”, diz, em misto de divertimento e alívio o prefeito de Ribas do Rio Pardo (97 km de Campo Grande), João Alfredo Danieze (PT).

Ele passou pelo sufoco que Toninho da Cofapi quer evitar. Ao assumir o cargo, no início de 2021, as conversas para a instalação da nova fábrica da Suzano, maior empresa de celulose do país, com faturamento de R$ 40 bilhões em 2023, estavam concretizadas. O empreendimento deve entrar em operação em 2025.

“Foi algo sem nenhum planejamento. Me falaram ‘toma que o filho é teu’. Mas qual prefeito não queria um filho de R$ 22 bilhões?”, questiona, citando o investimento para a chegada da empresa à cidade. “Em um primeiro momento, as demandas foram absurdas”, conta ele.

Foi todo o mundo para dentro da cidade, com impacto gigante: de 6.000 a 7.000 pessoas de uma vez em um local de 21 mil habitantes. Casas que antes tinham aluguel de R$ 700 mensais saltaram para R$ 2.500. Danieze disse ter sido obrigado a construir campos de futebol que funcionassem 24 horas por dia para que os operários “descarregassem a energia”.

O prefeito de Ribas do Rio Pardo viu a multiplicação de bordéis na cidade. Antes do início das obras, em 2021, existiam quatro estabelecimentos do entretenimento adulto. No auge da obra, o número saltou para 50.

A população cresceu de 23 mil para 35 mil pessoas. Foi necessário pedir maior policiamento, contratar mais médicos e, em parceria com a Suzano, criar programa de assistência social.

Foram noites aflitivas, diz o prefeito. Quando um problema parecia solucionado, surgia outro.

Toninho da Cofapi é só elogios para o desenvolvimento que acredita se avizinhar em Inocência. Mas, ao observar exemplos como o de Ribas do Rio Pardo, foi atrás de garantias.

A meta é evitar uma invasão de empregados temporários e de empresas terceirizadas, que podem sobrecarregar os sistemas de saúde e causar uma crise imobiliária.

“Sentimos que temos a colaboração da Arauco, mas os operários da fábrica ficarão hospedados a 40 km da cidade. Não virão para cá. E, por lei municipal que assinamos, nada de infraestrutura poderá ser construída em volta do canteiro de obras. Precisamos garantir o nosso futuro. Será construído um condomínio para os funcionários quando a fábrica estiver em funcionamento, e a Unimed vai se instalar na cidade, prometeram”, afirma.

No pico da construção da fábrica da Arauco, serão 12 mil operários, disse o CEO da empresa no Brasil, Carlos Altimiris. E, por causa disso, Toninho da Cofapi quer barrar qualquer iniciativa para que se crie uma cidade ao redor da fábrica, o que fatalmente, opina ele, “engoliria” Inocência.

“É uma questão delicada porque o dinheiro demora para vir. É uma indústria que tem um faturamento 20 vezes maior que o da prefeitura e vai trazer uma demanda que a cidade não vai dar conta. A pressão é grande e se faz necessário desenvolver políticas públicas. Tudo fica mais caro”, ressalta Fabio Muzetti, professor de arquitetura e urbanismo na PUC (Pontifícia Universidade Católica) de Campinas.

Entre os temores de Inocência estão o aumento da população de rua, da violência, o esgotamento do sistema municipal de saúde e uma necessidade muito maior de imóveis do que a cidade tem a oferecer.

Por outro lado, mostra também o exemplo de Ribas do Rio Pardo, a médio prazo o dinheiro compensa. “Quando cheguei à prefeitura, o orçamento era de R$ 120 milhões. Neste ano, vamos ultrapassar os R$ 400 milhões e em 2026 vai ser pouco mais de meio bilhão. É um salto significativo”, diz o prefeito Danieze, que cita outros exemplos: “Conversei com o prefeito de Ortigueira, que recebeu uma fábrica da Klabin. Ele me disse que não sabe o que fazer com tanto dinheiro”.

O chefe do Executivo na cidade paranaense é Ary Mattos (União Brasil). Ele foi procurado pela Folha, mas não atendeu aos pedidos de entrevista da reportagem. A cidade, com 24 mil habitantes, teve orçamento de R$ 245,3 milhões no ano passado.

DINHEIRO NA MÃO É VENDAVAL, ALERTA PROFESSOR DA FGV

Professor de administração pública na FGV (Fundação Getúlio Vargas), Gustavo Fernandes faz a ressalva que o município ter muito dinheiro de uma hora para a outra é diferente de ser rico.

Dinheiro na mão é vendaval. São cidades pequenas, em regiões carentes e que podem não ter capacidade administrativa. É preciso ter a capacidade de fazer boas escolhas, sem inchar a máquina porque isso não significa traduzir esse dinheiro em melhorias para a população. Pode até provocar um aumento da desigualdade, porque uma parte pequena da população se desenvolve e a maioria, não”, analisa.

Ele cita o exemplo do Rio de Janeiro. Apenas no ano passado, o estado recebeu R$ 11,3 bilhões em royalties do pré-sal. O governador Cláudio Castro tenta renegociar um débito de R$ 191 bilhões com a União, enquanto fala em crise financeira.

As cidades pequenas, fora do circuito das capitais, atraem megainvestimentos de celulose porque a indústria precisa de grandes espaços de terra para florestas. São 53 companhias em operação no país. É um mercado em ascensão e exportador, especialmente para a China.

Segundo estatísticas da Indústria Brasileira de Árvores, nos últimos quatro anos o volume de vendas para os chineses cresceu 17,2% e passou de US$ 3,2 bilhões, em 2019, para US$ 3,8 bilhões no ano passado.

Mato Grosso do Sul é o segundo estado brasileiro que mais exporta. Embarcou 4,46 milhões de toneladas em 2022, mostram números do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Foi responsável por 18,2% do faturamento do Brasil com celulose (US$ 1,52 bilhão).

É com o lado virtuoso desse crescimento que contam os pequenos municípios. “É realmente pior enfrentar problemas sem dinheiro do que com dinheiro”, acrescenta Fernandes.

Toninho da Cofapi —apelidado assim por causa da Comissão Organizadora da Festa do Peão de Inocência, principal festa popular local— também deposita nisso sua fé. Os recursos, jura, vão levar o progresso à região que sempre ficou marcada pela tranquilidade.

Batizada em homenagem ao romance homônimo de Afonso D’Escrangole de Taunay, que retrata a paisagem local, em que “caminham-se largas horas, dias inteiros sem se ver morada nem gente…”, Inocência é a 5.438º em densidade demográfica entre as 5.570 cidades do país, pelo Censo do IBGE.

Mas tranquilidade não combina com o progresso e os recursos que Toninho da Cofapi almeja.

Por FOLHAPRESS

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