No terceiro e último dia do 8º. Encontro Nacional da Média e Pequena Mineração, aconteceu pela manhã o debate ‘Transformação da Agricultura pelos Remineralizadores’

com a participação de Éder Martins, pesquisador da Embrapa Cerrados; Frederico Bernardez, diretor-presidente da ABREFEN e moderador, e Magda Bergmann, pesquisadora e geóloga do SGB/CPRM.

Frederico Bernardez, diretor-presidente da ABREFEN – Associação Brasileira dos Produtores de Remineralizadores de Solo e Fertilizantes Naturais, iniciou o painel dizendo que qualquer profissional ou empresa pode participar da associação, desde que esteja diretamente ligado ao movimento do setor e produção destes insumos ligados à agricultura. “É preciso fazer a integração entre mineração e agricultura da melhor forma possível, entendendo as demandas do agro”. 

Em 2023, o setor tem o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF) e o Plano Safra, recentemente publicado, que contemplam este tipo de insumo (os remineralizadores), prevê um subsídio para utilizar esses insumos. “Os remineralizadores de solo foram concebidos na Lei nº12.890/13, e são qualquer material de origem mineral que tenha sofrido apenas redução e classificação de tamanho por processos mecânicos”. Sobre a Regulamentação, Bernardez comentou que o setor conta com uma Lei, um decreto e a Instrução Normativa nº5/16, que regulam tudo que o material precisa ter para estar apto a ser classificado como remineralizador. 

Ao abordar o mercado, Bernardez ressaltou a dependência do Brasil em fertilizantes, em torno de 85%, e com a guerra da Ucrânia isso se acentuou, ainda mais com a previsão do aumento da população para 9,5 bilhões de pessoas até 2050, crescimento anual do uso de fertilizantes do Brasil e redução anual da produção dos mesmos fertilizantes. “Temos uma grande limitação para produção desses insumos solúveis. Daqui a pouco tempo teremos duas grandes crises por falta de abastecimento de fósforo e potássio. Existe uma necessidade de se antecipar a essas grandes crises anunciadas”. 

Cada vez mais é preciso fazer o uso eficiente de fertilizantes e há uma necessidade de olhar o lado físico-químico-biológico do solo. “A grande maioria dos ingredientes produzidos hoje são NPK, porém estão menos nutritivos. Com a guerra na Ucrânia, houve um reflexo na base dos alimentos (preço) e o produtor teve que repassar o prejuízo para a sociedade”. 

Se formos ver o impacto na agricultura nacional, cerca de 10% das áreas da agricultura do País já usaram remineralizadores (média de duas a três toneladas).  Por estado, Goiás iniciou em 2019/20 o uso desses insumos, seguido por Minas Gerais, e assumiu a liderança do mercado no momento, tendo ainda São Paulo e Paraná. 

“Esses insumos são peculiares, com características específicas, então, estamos discutindo uma forma de separá-los em grupos para reunir esses tipos de produtos para pesquisas sistemáticas, mas, por mais que o desenvolvimento esteja em crescimento, precisamos de articulações de políticas públicas para produção de insumos. Porém, não há nenhuma iniciativa local ou federal para a produção desses insumos”. 

Bernardez apontou ainda que as maiores regiões de produção agrícola do Brasil têm um potencial superior para ter pelo menos uma mina para remineralizadores a 100, 200 km. “Com incentivos corretos, é possível que o Brasil consiga atender aos planos do PNF para 2022-2050, de produzir 18 milhões de toneladas anuais de remineralizadores, porém o cenário ainda é desafiador”. Pelo PNF, o Brasil já possui 54 produtos registrados para serem comercializados. No último ano houve diversas oportunidades, mas em 2023 aconteceu uma queda no valor de fertilizantes no mercado internacional, enquanto no Brasil caiu o preço da saca da soja. Então, os produtores resolveram segurar a produção para esperar a recuperação do preço. Como ninguém compra nada, o produtor viu o poder de compra ser reduzido em cerca de 30%”. 

A respeito de oportunidades e pesquisa para sequestro de carbono, Bermudez comentou o potencial de sequestro de carbono com a utilização de fertilizantes e remineralizadores naturais. ”É uma oportunidade gigantesca para estarmos inseridos, o que depende de pesquisa e de uma regulamentação, mas temos que começar antes para inserir os produtos depois”. Os melhores resultados de cases foram da associação de remineralizadores com fertilizantes solúveis. “Precisamos fazer o uso racional desses produtos e melhorar a eficiência para conseguirmos ter uma redução de custos e proporcionar ganhos de produtividade diretos e indiretos (no segundo só como remineralizadores)”. Entre os pontos de destaque, o representante da ABREFEN citou uma mineração ‘limpa”, sem rejeitos e barragens, o que já atende aos princípios ODS e às práticas ESG, potencial sequestro de carbono, aproveitamento de materiais , mercado regulado, aproximação da mineração junto à sociedade. “O agro é bem visto pela sociedade e precisamos juntar a mineração nesse contexto”. 

Éder Martins, da Embrapa Cerrados, disse que é importante integrar as soluções do agro com a mineração, para elas caminharem lado a lado. “A primeira coisa é ver o modelo de agroecossistemas, que começa pelo solo, seguido pelo manejo das plantas adaptadas às condições de cada região, respeitando as sazonalidades para uma agricultura sustentável e um sistema produtivo (plantio, cobertura e manejo)”. 

A revolução verde, diz ele, é um exemplo de processo que aconteceu pelo manejo químico do solo com a criação e desenvolvimento de processos de melhoramentos genéticos de plantas. “Na questão da soja, houve uma tropicalização dela no Brasil, já que a planta tem origem asiática. Hoje você pode plantar soja em qualquer clima do Brasil, não há limitação, e, isso, graças ao melhoramento genético”. No solo, existe a correção dele e o uso intensivo de NPK, além de muita transgenia que aumenta a dependência de insumo, inclusive no controle de pragas e doenças. “Isso já evoluiu bem para o plantio direto de culturas, plantas de coberturas e sistemas integrados, mas chegamos num limite que não torna o sistema viável economicamente”. Então, os agrossistemas regenerativos consideram os pilares químico-físico-biológico, principalmente o último, e, a partir daí, começa-se a pensar em uma melhoria do melhoramento genético. “O que vai dar certo são os sistemas integrados, onde você mantém o solo bem e vivo durante todo o tempo, o que só acontece em ambientes tropicais”. 

Sobre Bioeconomia, Éder comentou que o Brasil tem que pensar em uma economia centrada, com a necessidade de olhar o solo do ponto de vista biológico. “Temos que ter um processo bioeconômico, em que tudo seja reciclado. A agroindústria gera uma quantidade grande de matérias-primas que podem ser utilizadas na agricultura. Também podemos reciclar o lodo de esgoto e transformar tudo isso em soluções”. Por que a mineração e o agro estão juntos? “O fato é que todos os nutrientes usados para fazer o manejo do solo vêm de uma rocha, com exceção do hidrogênio. Os agrominerais começam com a rocha, que passa por beneficiamento, para gerar o insumo utilizado no campo”. O solo é a fonte para agricultura, já que sua composição é derivada das rochas silicáticas, e o processo de formação do solo começa com o afloramento da rocha, passando por diversos estágios até chegar aos solos usados na agricultura. “Os solos são muito diferentes, a depender do clima (tropical e temperado), com cargas positivas e negativas, respectivamente”. O importante é que este processo gera minerais novos, com três efeitos diretos: formação de nutrientes, correção do solo e formação de novas fases (minerais de baixa cristalinidade e argilominerais). 

Éder disse ainda que o Brasil possui 600 empresas ativas ligadas à parte de produção de agregados para a construção civil e 500 com potencial agrícola para produção de co-produtos. “O problema é que a demanda do potencial agrícola brasileiro é de 75 milhões de toneladas por ano para fazermos a remineralização completa. A produção de brita é de 250 milhões de toneladas anuais, o que não é difícil para o setor, mas e necessário adaptar tecnologias. O Brasil conta também com políticas públicas sobre o tema, com mecanismos de ODS e cadeia produtivas do PNF”. 

A pesquisadora e geóloga do SGB/CPRM, Magda Bergmann, apresentou o perfil das rochas utilizadas no processo de remineralizadores, informando que “os agrominerais silicáticos certificados no Brasil somam 61 produtos e se dividem em remineralizadores (88,7%), fertilizantes minerais simples (6,45%) e material secundário (4,8%)”. 

A pesquisadora deu um panorama nacional falando sobre cada região. Na Região Sul existem atualmente 14 produtos certificados (23% do total de produtos certificados) e 86% são basaltos, considerada uma “rocha que está em foco mundialmente nos processos de sequestro de carbono em solos”. Porém, o basalto não é fonte de potássio e existe uma carência de fontes deste mineral na região. “Os três estados do Sul não se destacam pela abundância de biotita xistos, como a região Centro-Oeste”. No entanto, todos os estados da região Sul têm ocorrências de dacitos, rochas vulcânicas que excepcionalmente podem chegar a ter 9% de K2O, presente no feldspato potássico sanidina. Magda salienta acredita que os dacitos devem ser melhor estudados por meio de ensaios agronômicos quanto ao seu potencial de fontes de potássio. 

Sobre a região Sudeste, a pesquisadora disse haver uma maior diversidade de rochas e insumos, mas mesmo assim existe um predomínio do basalto (31%dos produtos) e fontes de potássio mais robustas, fonolitos em Poços de Caldas (MG) e alguns materiais peculiares, como a biotita (Embu/SP), que é separada magneticamente de finos de britagem de granito. “Aí, você consegue um material com 6% de K2O. Apesar disso, ainda há uma carência de oferta de produtos que sejam fontes de potássio. Não podemos esquecer a cadeia de rochas ornamentais capixabas, onde o potencial se prende aos descartes de mineração e também do beneficiamento, sendo que este último necessitaria de adequações do processo produtivo para ter aproveitamento dos resíduos, o que, com vontade política e uso da tecnologia, pode ser viável”. 

No Centro-Oeste, região que concentra o agronegócio brasileiro, são 12 produtos certificados, além de se constatar uma geodiversidade impressionante. “Quase a metade dos materiais oferecidos são micaxistos, o basalto está presente em Goiás e Mato Grosso e a Província Alcalina de Goiás (PAGO) se destaca pelas rochas ricas em potássio. As restrições na PAGO são a falta de mapeamento dos corpos alcalinos em escala compatível com a prospecção, e também o fato de que as rochas com teores mais altos de K2O têm textura mais grossa, o que requer estudos específicos para investigar a liberação do potássio nos minerais que compõem as rochas”. 

Os micaxistos são muito conhecidos e explorados em Aparecida de Goiânia, na unidade geológica do Grupo Araxá, mas precisam ser investigados em outras localidades e também em outras unidades, como no Grupo Serra da Mesa, no norte e nordeste de Goiás. O foco entre os micaxistos são os biotita-xistos, pois a biotita é o mineral alvo, por ser um mineral silicático rico em potássio e reativo em solos.  Há também as ardósias potássicas do Grupo Bambuí, e que começam a ser encontradas em outras unidades, entre elas o Grupo Paranoá. 

No Nordeste, Magda disse que existe pouca oferta de produtos, com apenas 8% do total de produtos certificado em nível nacional. “Temos de estudar os descartes de mineração do polo gesseiro de Araripe”. Foram citadas unidades geológicas a serem investigadas para biotita xistos na região Nordeste, como a Faixa Sergipana e a Faixa Seridó. Magda destaca a caracterização de fontes de potássio, fósforo, cálcio, magnésio e fontes de multinutrientes, disponibilizada pelo Projeto Agrominerais da região de Irecê- Jaguarari, do SGB-CPRM, que foi publicado em 2014, sem que até hoje os materiais tenham sido alvo de aproveitamento como agrominerais silicáticos. “Queremos ver isso acontecer”. Por último, o Norte tem apenas dois produtos, a partir de gnaisses, no Tocantins, o que evidencia a carência de oferta de remineralizadores em importantes regiões agrícolas como o MATOPIBA. “O que se destaca é o projeto de levantamento do potencial agromineral do Brasil, Eixo Manaus-Boa Vista (SGB-CPRM), que aponta basaltos em Roraima, estado que demonstra carência de rochas para correção de acidez em solos e está importando calcário da Venezuela”. Há os fosfatos naturais reativos da Bacia Amazônica paleozóica, as turfas na cenozoica. 

Também foi destacada a necessidade de promover à agricultura familiar o acesso aos remineralizadores e fertilizantes silicáticos, como forma de diminuir os custos da produção de alimentos como feijão, arroz e hortaliças, “que são os alimentos que nós comemos”. 

Em suas considerações finais, Magda disse da importância de linhas de financiamento que subsidiem o acesso de agricultores a diversas categorias de agrominerais silicáticos; reforçou a falta de oferta de remineralizadores em regiões como o MATOPIBA; a necessidade de  intensificação da oferta de remineralizadores no Sul, Norte e Nordeste; a de promover uma maior variedade de fontes de nutrientes, em especial o potássio, em todas a regiões; a importância do aproveitamento de novos materiais com pastas de mineração e de valorizar iniciativas regionais, como os Polos Agrominerais Verdes, APLs de base mineral e outras.  

Homenagem 

No final do primeiro painel, Luís Vessani, da ABPM, homenageou Éder Martins por sua contribuição para o setor com mais de 150 artigos completos, três livros e participação em 24 capítulos de livros.

“Esse é um evento da valorização da mineração, com preocupação com a emissão de carbono e transição energética, com grande participação da mineração e um momento de valorizarmos o setor. A questão dos remineralizadores é uma grande contribuição para a redução da emissão de carbono. Entendi que o remineralizador não alimenta a planta, mas alimenta o solo”. Hoje temos uma possibilidade de criar uma mineração sustentável e Éder Martins é o grande idealizador e promotor da remineralização no Brasil”.

Fonte: Brasil 61

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